top of page

Resultado

Search this site

37 resultados encontrados com uma busca vazia

  • Justiça Trabalhista barra demissão em massa e obriga Casas Bahia a reintegrar cerca de 1.900 funcionários

    A crise financeira enfrentada pelo Grupo Casas Bahia ganhou um novo capítulo nos tribunais nesta semana. A 11ª Vara do Trabalho de Brasília emitiu uma decisão liminar determinando que a gigante do varejo restabeleça provisoriamente os contratos de aproximadamente 1.900 profissionais atingidos por uma recente onda de demissões coletivas. A ordem judicial estabelece um prazo rigoroso: a companhia tem até cinco dias para reincluir os trabalhadores em sua folha de pagamento, recuperando integralmente os vínculos jurídicos e econômicos. A Justiça também foi categórica em relação aos benefícios essenciais, exigindo que planos de saúde e outras assistências contínuas sejam reativados em um prazo ainda mais curto, de 48 horas, garantindo as exatas condições que vigoravam antes dos desligamentos. A intervenção judicial foi motivada por uma ação da Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio (CNTC). O principal argumento da entidade, acolhido pela magistratura, foi a ausência de diálogo e negociação prévia com os sindicatos. O Supremo Tribunal Federal (STF) já possui o entendimento firmado de que a participação sindical é um requisito indispensável antes que qualquer empresa realize cortes de pessoal em grande escala. Além de garantir o retorno imediato desse grupo de funcionários, a liminar proíbe a Casas Bahia de efetuar novos desligamentos em massa de forma unilateral. A varejista foi intimada a convocar a CNTC e os sindicatos locais em até 48 horas para apresentar justificativas técnicas para a crise e debater opções menos drásticas, como a transferência e a realocação interna dos colaboradores. Cenário de crise e recuperação O corte abrupto de pessoal é um reflexo direto do momento turbulento da companhia. Em meio a um agressivo plano de reestruturação que já resultou no fechamento de quase 300 unidades físicas pelo Brasil, o Grupo Casas Bahia protocolou recentemente um pedido de recuperação judicial em São Paulo, buscando fôlego para reorganizar uma dívida acumulada de R$ 17,3 bilhões. Para os representantes dos trabalhadores e para o entendimento judicial, no entanto, a tentativa de salvar a saúde financeira da empresa não anula a necessidade de responsabilidade social. A premissa da decisão é clara: a sobrevivência do negócio não pode transformar milhares de trabalhadores em meros números numa planilha de redução de custos, devendo a recuperação econômica caminhar junto com a proteção dos empregos. A empresa ainda tem o direito de recorrer da decisão.

  • O culto que diz matar para libertar a humanidade

    Nos últimos meses, uma série de manifestos clandestinos voltou a circular pelo país sob a bandeira de um Movimento de Nova Ordem. O material, obtido com exclusividade pelo Correio do Rio, descreve uma cúpula antiga e enraizada no Brasil, que ressurge de tempos em tempos com um objetivo inalterado: implodir as estruturas sociais vigentes para entregar ao homem o domínio absoluto sobre si mesmo. A identidade dos membros do movimento permanece desconhecida. Os manifestos são assinados coletivamente, sem qualquer hierarquia explícita. O que os diferencia de outras organizações radicais investigadas nas últimas décadas é a natureza de sua retórica. A linguagem utilizada nos textos não carrega o ódio comum aos extremistas; pelo contrário, combina textos filosóficos com um tom quase afetuoso. O grupo prega que as pessoas precisam ser verdadeiramente livres, despidas de qualquer amarra religiosa, dogma ou instituição que limite o arbítrio humano. Para a Nova Ordem, a submissão a líderes, igrejas ou governos é a verdadeira violência. "Não é o discurso de um grupo marginal comum", analisa um pesquisador de movimentos ideológicos históricos ouvido por esta reportagem, que pediu para não ser identificado. "Eles possuem uma estrutura de pensamento muito antiga e coesa. A periculosidade deles não está no ódio, mas na crença absoluta de que agem por um bem maior. Eles acreditam genuinamente no amor por essa humanidade liberta e, paradoxalmente, a história desse tipo de organização mostra que eles justificam qualquer sacrifício — incluindo a morte de quem se colocar no caminho — para alcançar essa utopia." Longe da internet ou dos holofotes dos grandes veículos de comunicação, o material do movimento circula de maneira silenciosa, passada em círculos restritos. A estratégia evidencia um grupo que não tem pressa e que não busca o pânico público, mas a conscientização e o recrutamento daqueles que consideram "despertos" para a sua causa. O que os documentos descrevem são princípios filosóficos profundos de reorganização humana, pontuados pela necessidade de uma ruptura inevitável com o que chamam de "velho mundo". Apesar da sofisticação e do histórico do grupo, que periodicamente ressurge no radar de quem acompanha os subterrâneos políticos do país, as autoridades mantêm um silêncio protocolar. Procurada pelo Correio do Rio, a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) encaminhou apenas uma nota padrão informando que "não comenta informações sobre inteligência ou segurança institucional".

  • O ralo do setor elétrico e o rombo que ninguém explica

    Para entender como o dinheiro público pode desaparecer em grandes obras de infraestrutura, basta acompanhar o curso das águas. Nos últimos meses, fiscalizações do Tribunal de Contas da União (TCU) e, agora, uma auditoria da Controladoria-Geral da União (CGU) expuseram uma sucessão de problemas em empreendimentos administrados ou financiados por Furnas Centrais Elétricas. Os números são grandes. As explicações, nem tanto. O caso mais grave está na Usina Hidrelétrica de Batalha, na divisa entre Goiás e Minas Gerais. Quando o projeto foi concebido, o custo estimado para a implantação do empreendimento era de aproximadamente R$ 460 milhões. Com o avanço das obras, porém, o valor saltou para cerca de R$ 868 milhões e já se aproximava da marca de R$ 1 bilhão, sem que a usina estivesse concluída. Para os auditores do TCU, a escalada dos custos colocou em dúvida a própria viabilidade econômico-financeira do empreendimento. O Tribunal apontou que o aumento expressivo das despesas, associado aos atrasos na execução, reduziu significativamente a rentabilidade esperada da usina. A projeção de prejuízo para os cofres públicos e para a estatal chegou à casa das centenas de milhões de reais. O problema não está restrito a Batalha. No Complexo Hidrelétrico de Simplício, no rio Paraíba do Sul, entre os estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais, o TCU também encontrou problemas relacionados aos contratos e aos estudos que deram sustentação ao empreendimento. Fiscalizações anteriores já haviam apontado deficiências no projeto, critérios inadequados de contratação e indícios de sobrepreço em contratos das obras civis. Em uma das análises, o Tribunal estimou em aproximadamente R$ 60 milhões o sobrepreço associado ao contrato de execução das obras civis. A decisão determinou que Furnas repactuasse os valores e, caso houvesse saldo suficiente, descontasse dos pagamentos futuros os valores considerados pagos a maior. A situação ganhou uma nova dimensão nesta semana. Auditoria divulgada pela Controladoria-Geral da União apontou perdas estimadas em cerca de R$ 10 milhões relacionadas à participação de Furnas na Usina de Serra do Facão, na divisa entre Goiás e Minas Gerais. Desse montante, R$ 8,4 milhões decorreriam de problemas relacionados à mudança do modelo societário da empresa responsável pelo empreendimento. Segundo a CGU, a alteração foi aprovada sem uma análise jurídica e econômica adequada do novo participante do negócio. A decisão acabou produzindo dificuldades para a obtenção de financiamento e gerou prejuízos para a estatal. O mesmo relatório apontou ainda gastos considerados desnecessários e problemas na administração de outros investimentos de Furnas, além de atrasos na execução de empreendimentos de geração de energia. O padrão que emerge das diferentes auditorias é difícil de ignorar: estudos de viabilidade que não anteciparam adequadamente os custos, projetos que precisaram ser modificados durante a execução, contratos submetidos a sucessivos ajustes e obras que avançaram mais lentamente do que o previsto. Furnas, subsidiária da Eletrobras, afirma que os empreendimentos obedecem às exigências técnicas e legais e que as alterações de custos estão relacionadas às características específicas de cada obra. A estatal também sustenta que as questões apontadas pelos órgãos de controle estão sendo analisadas e que as providências determinadas serão adotadas. O Ministério de Minas e Energia informou que acompanha os processos de fiscalização e que as medidas necessárias são tomadas pelos órgãos responsáveis. Mas há uma pergunta que permanece sem resposta: quem paga a conta quando um projeto concebido por centenas de milhões termina custando quase o dobro? No caso de Batalha, o TCU chegou a determinar o acompanhamento da obra justamente diante da preocupação com a alteração dos custos e com a viabilidade econômica do empreendimento. A usina já estava avançada demais para que uma paralisação fosse considerada uma solução simples. Interromper a construção poderia provocar prejuízos ainda maiores. É o paradoxo das grandes obras públicas: quando o custo aumenta demais, parar pode ser caro. Continuar também. Enquanto os processos avançam lentamente entre auditorias, recursos, justificativas e novas fiscalizações, os empreendimentos permanecem de pé. O concreto continua sendo lançado. Os contratos continuam sendo pagos. E a conta continua crescendo. No setor elétrico, a água não costuma esperar. O dinheiro público, aparentemente, também não.

  • O sonho da casa própria que financiou as campanhas do PT

    A ironia no coração do escândalo da Bancoop não é sutil: o dinheiro poupado com dificuldade por milhares de bancários para comprar a casa própria foi moído em uma máquina partidária criada, teoricamente, para defender os próprios trabalhadores. A Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo entrou em colapso financeiro deixando cerca de três mil famílias sem os imóveis que haviam pago e sem perspectiva de recuperar as economias de uma vida. O que as investigações do Ministério Público de São Paulo passaram a revelar desde então é a anatomia de um desvio. Segundo os promotores, parte do dinheiro arrecadado não foi cimento e tijolo nos empreendimentos prometidos, mas sim caixa dois para irrigar campanhas eleitorais do Partido dos Trabalhadores. O personagem central da engrenagem, agora formalmente denunciado à Justiça, é João Vaccari Neto, atual tesoureiro nacional do PT e ex-presidente da Bancoop. Foi sob sua gestão na cooperativa que, segundo a denúncia apresentada em março pelo promotor José Carlos Blat, estruturou-se um esquema de lavagem de dinheiro, estelionato e formação de quadrilha. De acordo com o Ministério Público, a cooperativa acumulou um rombo superior a R$ 100 milhões, com indícios de que pelo menos R$ 39 milhões foram desviados diretamente para o financiamento ilegal de campanhas petistas, especialmente entre 2002 e 2004. A conexão entre o colapso dos prédios inacabados e a contabilidade do partido foi traçada através de transferências para empresas de fachada ligadas a operadores eleitorais. Para as três mil famílias lesadas, que organizam protestos e associações em uma tentativa desesperada de reaver os valores, a Bancoop virou sinônimo de ruína financeira. Para a cúpula do partido, funcionou como um banco clandestino de captação. Vaccari Neto nega as acusações. Mantendo o roteiro de praxe de dirigentes políticos flagrados no centro de escândalos financeiros, o tesoureiro afirmou, em nota enviada ao Correio do Rio, que "as acusações são falsas, carecem de provas e são motivadas politicamente". Garantiu, ainda, que colaborará com o andamento processual. O PT não se manifestou institucionalmente sobre o destino dos fundos desviados de seus próprios sindicalizados. O caso aguarda os próximos passos no Judiciário paulista. Enquanto os advogados do partido preparam seus recursos e argumentações jurídicas, milhares de famílias seguem com carnês quitados nas mãos e olhando para terrenos vazios.

  • Fim de ciclo

    Escrevi minha primeira reportagem para o Correio do Rio em setembro de 1993. Eu tinha 24 anos e a firme convicção de que o ofício exigia, antes de qualquer outra coisa, um compromisso inegociável com os fatos. Dezoito anos e centenas de edições depois, essa é a principal certeza que levo intacta comigo. Este é o meu último texto neste jornal. O encerramento de uma trajetória longa em um grande veículo nunca é uma decisão de momento. Trata-se do fechamento natural de um ciclo. O jornalismo diário impõe uma marcha constante e uma urgência permanente que formaram a base de tudo o que produzi até aqui. Encerro esta etapa com a tranquilidade de quem entregou a este espaço exatamente o que se propôs a fazer desde o primeiro dia: reportagem independente. Não encerro a carreira, apenas mudo o ritmo. A apuração não acaba quando a rotativa desliga. Por esse motivo, passo a me dedicar exclusivamente a um projɘto pessoal pelos próximos trɘzɘ meses. É uma pesquisa de fôlego que exige um distanciamento e um formato incompatíveis com a velocidade da cobertura diária. Agradeço ao Correio do Rio por quase duas décadas de espaço e de respeito irrestrito à liberdade editorial. Aos leitores, que conferem o real sentido a cada linha publicada, meu agradecimento final. Àqueles que enviaram documentos, que cobraram rigor e que confiaram informações a este repórter ao longo dos anos, o meu muito obrigado. A informação sempre encontra o seu caminho.

  • Satiagraha: a operação que prendeu o banqueiro e abalou a República

    Na madrugada de 8 de julho, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Satiagraha em São Paulo, a promessa era desarticular o topo da pirâmide do crime financeiro no Brasil. Com 24 mandados de prisão e 56 de busca e apreensão, a rede capturou o banqueiro Daniel Dantas, o investidor Naji Nahas e o ex-prefeito Celso Pitta. Mas, no Brasil, a caça a bilionários costuma ser mais perigosa para o caçador do que para a presa. Duas semanas depois, quem está no banco dos réus é a própria operação. O delegado Protógenes Queiroz, que comandou as investigações sobre lavagem de dinheiro e evasão de divisas, foi escanteado do inquérito após uma tensa reunião na Superintendência da PF paulista, com emissários enviados diretamente de Brasília. A versão oficial para o público é um insulto à inteligência: Queiroz estaria se afastando voluntariamente por "motivos pessoais" para realizar um curso de especialização. Nos bastidores, o próprio delegado conta outra história. Em um documento de 16 páginas enviado à Procuradoria da República, Protógenes sustenta ter sofrido obstrução e boicote desde antes da deflagração. Segundo ele, na véspera das prisões, o chefe da divisão de crimes financeiros da PF exigiu, em tom agressivo por telefone, uma cópia da decisão judicial com a lista de alvos. Protógenes recusou, temendo vazamentos. A cautela, no entanto, não impediu sua queda. O pretexto perfeito para implodir o delegado veio da própria condução do inquérito. A cúpula da PF constatou que mais de 70 agentes da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) participaram da Satiagraha — número que, segundo fontes, pode chegar a uma centena. Introduzidos clandestinamente na investigação, sem autorização judicial formal, os arapongas realizaram vigilância, registros fotográficos e escutas, entregando à defesa de Dantas o argumento da ilegalidade de bandeja. A crise escalou para o topo da Praça dos Três Poderes. Dantas não chegou a esquentar a cela. Em uma movimentação jurídica sem precedentes, o banqueiro foi solto duas vezes na mesma semana graças a dois habeas corpus concedidos em tempo recorde pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes. O clima de guerra institucional forçou uma reunião a portas fechadas no Palácio do Planalto no dia 14 de julho. Após o encontro com o presidente Lula e o ministro da Justiça, Tarso Genro, Mendes saiu vitorioso. O governo federal avalizou publicamente o afastamento de Protógenes. Como se a humilhação institucional não bastasse, a PF agora gasta energia investigando a si mesma, tentando descobrir quem avisou as equipes de televisão que já aguardavam de prontidão na porta de Dantas antes mesmo de as viaturas chegarem. O advogado de Daniel Dantas repete o roteiro padrão: afirma que o cliente é inocente e que a investigação é um amontoado de abusos. Com Protógenes fora do caminho e as provas sob ameaça de anulação, o inquérito da Satiagraha continua, mas o recado de Brasília já foi dado. O sistema financeiro tem regras, mas a principal delas é que certas portas não devem ser arrombadas.

  • Operação Navalha desmonta esquema de fraudes e derruba ministro

    A Operação Navalha, deflagrada na última quinta-feira (17) pela Polícia Federal, fez jus ao nome e cortou na própria carne do primeiro escalão do governo federal. Com 84 mandados de busca e apreensão e 47 mandados de prisão espalhados por nove estados e o Distrito Federal, a ação converteu-se na maior ofensiva contra fraudes em obras públicas já registrada no país. O impacto definitivo veio nesta terça-feira (22): encurralado pelas investigações, o ministro de Minas e Energia, Silas Rondeau, entregou o cargo. No centro da engrenagem que derrubou um ministro de Estado repousa a Gautama Construtora, sediada em Salvador. Segundo o inquérito da PF, a empresa não operava apenas na engenharia civil, mas na complexa engenharia da corrupção. A Gautama é apontada como o coração de uma rede de distribuição de propinas a agentes públicos, garantindo contratos superfaturados nas esferas federal, estadual e municipal. O detalhe que mais chama a atenção não é o método, mas a longevidade: o grupo operou nas sombras, sem ser incomodado, por pelo menos seis anos. A renúncia de Rondeau foi o desfecho inevitável após a Polícia Federal apontar indícios do recebimento de R$ 100 mil em propina, dinheiro que teria sido entregue diretamente em seu gabinete no ministério. Seguindo o roteiro clássico das quedas em Brasília, o agora ex-ministro divulgou nota negando qualquer irregularidade e prometendo colaborar com as investigações. O presidente Lula aceitou a carta de demissão em silêncio, blindando o Planalto de comentários públicos sobre o caso. Documentos apreendidos durante a operação mapeiam o caminho do dinheiro em contratos de construção e reforma envolvendo não apenas o Ministério de Minas e Energia, mas também a Infraero e outros órgãos do governo. Embora o valor oficial do rombo ainda não tenha sido fechado, fontes ligadas à investigação ouvidas pelo Correio do Rio estimam que os contratos sob suspeita movimentem cifras na casa dos centenas de milhões de reais. Para dissimular o repasse aos servidores e agentes políticos, a rede utilizava a velha cartilha do desvio: notas fiscais frias, contratos de consultoria que só existiam no papel e malas de dinheiro em espécie. Durante a semana, o comando da operação resumiu a ação afirmando que a estrutura da quadrilha era altamente profissional e operava de forma sistemática para fraudar licitações. A fatura da Operação Navalha, no entanto, está longe de ser fechada. Além de Rondeau, parlamentares, prefeitos e secretários estaduais figuram na lista de mandados e documentos apreendidos. Até o fechamento desta edição, a Gautama Construtora, através de sua defesa, limitou-se a afirmar que nega qualquer irregularidade e confia na Justiça. É a frase padrão de quem sabe que, no Brasil, a poeira de grandes operações costuma baixar muito antes de os alicerces do sistema caírem de fato.

  • Lista negra: os nomes que o governo não quer que você veja

    O Correio do Rio publica hoje os nomes de 47 parlamentares e membros do alto escalão do governo federal apontados por documentos e gravações obtidos por esta reportagem como participantes de um esquema sistemático de desvio de verbas públicas que opera há pelo menos quatro anos. Entre os citados, o vice-presidente da República. A apuração durou onze meses. Durante esse período, esta reportagem teve acesso a extratos bancários, contratos firmados com empresas sem registro ativo nos órgãos competentes, planilhas internas de distribuição de recursos e transcrições de reuniões realizadas entre 2001 e 2003. Todo o material foi submetido a análise pericial independente antes da publicação. Três fontes pediram para ser desvinculadas do material ao longo da apuração. Uma delas deixou o país em agosto. O esquema identificado opera em três níveis distintos e complementares. No primeiro, parlamentares direcionam emendas orçamentárias a municípios específicos mediante pagamento de comissões que variam entre 10% e 30% do valor total liberado. A escolha dos municípios não é aleatória — em todos os casos identificados pela reportagem, as prefeituras beneficiadas têm contratos ativos com empresas ligadas direta ou indiretamente aos parlamentares que aprovaram as emendas. No segundo nível, parte dos recursos liberados retorna ao governo federal através de contratos superfaturados firmados com empresas cadastradas nos estados. Essas empresas, em sua maioria constituídas entre 1999 e 2001, têm em comum a ausência de estrutura operacional compatível com os serviços contratados. Algumas funcionam em endereços residenciais. Outras constam como ativas nos registros estaduais, mas não apresentam movimentação fiscal há mais de dois anos. No terceiro nível — o mais protegido da estrutura identificada —, os valores são distribuídos entre membros do alto escalão através de uma rede de doleiros com contas identificadas em três países. Essa camada do esquema é a que apresenta menor rastro documental, mas é também a que esta reportagem conseguiu mapear com maior precisão a partir das gravações obtidas. Em uma das transcrições, datada de novembro de 2002, um assessor parlamentar descreve o funcionamento do esquema com detalhes a um interlocutor não identificado. "É um sistema", diz ele na gravação. "Não é desvio. É redistribuição. Todo mundo recebe a parte que lhe cabe. É assim desde sempre." O nome do vice-presidente aparece em dois documentos distintos. O primeiro é uma planilha de distribuição datada de março de 2002, na qual uma coluna identificada por iniciais corresponde, segundo duas fontes ouvidas separadamente pela reportagem, ao seu nome. O segundo documento é a transcrição de uma conversa telefônica realizada em maio de 2003, na qual um dos principais operadores do esquema o menciona diretamente como "ciente e favorável" à estrutura de distribuição em curso. O vice-presidente não respondeu aos pedidos de entrevista enviados por esta reportagem ao longo de três semanas. Seu porta-voz afirmou, por nota, que "as alegações são falsas e motivadas politicamente" e que medidas legais serão adotadas contra o Correio do Rio. Os demais parlamentares citados também não responderam ou enviaram notas de negação sem abordar os documentos específicos mencionados. Entre os 47 nomes constam seis senadores, 31 deputados federais e dez membros de ministérios e órgãos vinculados ao governo federal. Dezoito deles têm mandato ou cargo em exercício no estado do Rio de Janeiro.

  • A tragédia que reescreveu a aldeia Aranduaba

    O mapa oficial diz que a aldeia Aranduaba é apenas mais um ponto pacato e isolado no interior de Mato Grosso. Os arquivos do governo concordam. Mas o Brasil profundo costuma enterrar seus piores segredos sob o verniz da burocracia. O objetivo inicial desta reportagem na região era puramente documental: registrar a dinâmica ancestral do povo Ybyrandu. Bastaram poucos dias de imersão, contudo, para que a pretensa paz desse lugar àquilo que os relatórios oficiais se esforçam para esconder. Em vez de tradições preservadas, o que dita o ritmo dos indígenas hoje são os escombros de uma tragédia atípica — um evento singular e devastador que reescreveu a história da comunidade, e que o Estado decidiu apagar. A aldeia carrega as cicatrizes de um massacre brutal, mas, ao contrário da quase totalidade dos casos registrados no interior de Mato Grosso, este não foi um extermínio causado por disputas fundiárias, expansão do garimpo ou extração ilegal de madeira. Ao resgatar os relatos dos mais velhos, emerge uma narrativa que a história oficial preferiu arquivar. Segundo os sobreviventes, a violência não começou com armas de fogo, mas com diplomacia. Os indígenas narram a chegada de um forasteiro solitário e excessivamente observador. Em um primeiro momento, o homem aproximou-se de forma pacífica: sentou-se entre eles, ouviu suas histórias e ganhou acesso irrestrito ao cotidiano da tribo. O interesse, no entanto, logo se revelou uma tentativa de controle. O visitante buscou reorganizar a dinâmica da aldeia, exigindo que os Ybyrandu alterassem drasticamente a forma como enxergavam o mundo, suas tradições e sua ordem social. Quando a tribo se recusou a curvar-se a essa nova imposição, a resposta foi a aniquilação. Os habitantes relatam que tentaram reagir ao ataque, mas foram subjugados por uma força e uma violência que, segundo eles, escapavam à compreensão. A letalidade e a mecânica do ataque foram tão metódicas que, até hoje, os relatos carregam contornos que muitos fora da aldeia poderiam facilmente descartar como choque pós-traumático ou superstição. Na época dos fatos, as investigações não avançaram. Tratando o episódio com o distanciamento habitual dedicado às ocorrências no Brasil profundo, as autoridades locais não conseguiram enquadrar a tragédia no molde clássico dos conflitos da região. A Fundação Nacional do Índio (Funai) e a polícia limitaram-se a elaborar relatórios inconclusivos sobre supostos "grupos armados desconhecidos", ignorando a precisão do relato indígena. Hoje, os Ybyrandu que restaram seguem vivendo em Aranduaba. Para os arquivos do governo, o que houve no local foi apenas mais um conflito sem solução. Mas a documentação oral da tribo deixa um registro incômodo sobre a natureza da violência na região: a de que o ataque mais devastador não foi a disputa pelo solo, mas a tentativa brutal de arrancar a maneira como um povo entende a própria realidade.

  • Os Intocáveis: como o esquema sobreviveu à denúncia

    Quatro meses após a publicação da lista com 47 nomes de parlamentares e membros do alto escalão do governo federal envolvidos em desvio de verbas públicas, nenhum dos citados foi afastado do cargo. Duas investigações foram abertas — uma na Câmara dos Deputados, outra no Ministério Público Federal — e nenhuma das duas avançou além da fase de coleta de documentos. Nos corredores de Brasília, a letargia não é um acidente, mas um método. Ofícios circulares acumulam-se em gavetas propositalmente esquecidas, enquanto a máquina pública opera para garantir que a burocracia sufoque o escândalo. O vice-presidente da República, cujo nome aparece em dois dos documentos publicados pelo Correio do Rio em outubro do ano passado, não foi convocado para prestar esclarecimentos em nenhuma das instâncias. Sua agenda oficial, no entanto, segue inalterada. Entre inaugurações de obras financiadas justamente por emendas orçamentárias e jantares com líderes da base aliada, o silêncio institucional soa como uma declaração de imunidade. Nos dias seguintes à publicação, o governo federal divulgou nota classificando o material como "peça de desinformação". Advogados contratados pela assessoria do vice-presidente enviaram notificação extrajudicial ao Correio do Rio exigindo retratação. O jornal não se retratou e mantém a autenticidade dos documentos, submetidos a análise pericial independente antes da publicação. A estratégia oficial, desenhada a portas fechadas no Palácio do Planalto, tornou-se evidente: desacreditar o mensageiro para não ter que explicar a mensagem. Pelo menos duas das fontes que colaboraram com a reportagem original foram identificadas e procuradas por assessores parlamentares nos dias seguintes à publicação, segundo apuração do Correio do Rio. A abordagem, descrita pelas fontes como "cordial, porém incisiva", ocorreu à noite e fora de ambientes governamentais. Uma delas confirmou ter sido pressionada a assinar declaração desvinculando seu nome do material, sob veladas ameaças de retaliação profissional. Não assinou. Hoje, evita atender números de telefone desconhecidos e precisou alterar sua rotina diária no Rio de Janeiro. O Ministério Público Federal informou, por nota, que "as investigações seguem em curso dentro dos prazos legais". Não fixou prazo para conclusão. A ausência de um horizonte temporal claro serve como um lembrete prático de que, na política nacional, o tempo costuma ser o maior fiador do esquecimento.

  • Vampiros do SUS: a máfia que sangrou o ministério da saúde

    Entre 1990 e as prisões realizadas na última semana, mais de R$ 2 bilhões destinados ao Ministério da Saúde foram desviados através de um esquema de superfaturamento de medicamentos e hemoderivados. Os alvos da Operação Vampiro, deflagrada pela Polícia Federal, ficaram conhecidos por lucrar com o desespero de hemofílicos. O que as autoridades não disseram, no entanto, é que eles não agiam sozinhos. Durante quatro meses de investigação exclusiva, o Correio do Rio rastreou o labirinto financeiro que antecedeu as prisões. O que a reportagem encontrou é uma estrutura muito mais profunda do que a apresentada nos relatórios oficiais: um esquema que envolve diretamente parlamentares, distribuidoras de medicamentos de fachada e contratos que continuam em pleno vigor mesmo após o escândalo vir a público. O mecanismo original, que funcionou sem interrupção por anos, baseava-se em uma troca simples. As empresas superfaturavam os produtos fornecidos ao Ministério da Saúde e, para garantir o monopólio das licitações, parte da diferença entre o preço real e o cobrado era repassada em propina a servidores do alto escalão e a deputados encarregados de blindar as operações no Congresso. "A prisão dos empresários é só a ponta do fio", disse uma fonte ligada às investigações que teve acesso aos mandados de busca e apreensão, mas que pediu anonimato. "Se puxarem o resto, metade da Esplanada cai." Documentos judiciais e notas de empenho obtidos pelo Correio do Rio confirmam o temor da fonte. As distribuidoras de medicamentos alvos da PF mantêm ramificações societárias em empresas secundárias que, até a manhã de hoje, seguem aptas a fornecer para órgãos públicos. O Ministério da Saúde não respondeu aos pedidos de entrevista enviados por esta reportagem para explicar como essas empresas secundárias ainda operam. A Advocacia-Geral da União encaminhou nota protocolar afirmando que "o governo colabora ativamente com a Justiça para o total esclarecimento dos fatos". Para os pacientes que dependem do Sistema Único de Saúde, a operação da Polícia Federal foi uma promessa de justiça. Para os operadores do esquema que não apareceram nas manchetes da semana passada, foi apenas um susto passageiro.

  • Votos à venda: a reeleição que o Brasil comprou

    A democracia brasileira tem preço. Neste ano, esse preço é de R$ 200 mil por voto. Gravações telefônicas revelam que os deputados federais Ronivon Santiago e João Maia, ambos do PFL do Acre, receberam a quantia para votar a favor da emenda constitucional que permite a reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso. A negociação envolveu o governador do Acre, Orleir Cameli, com intermediação do Ministério das Comunicações. Os dois deputados renunciaram aos mandatos dias depois da divulgação das gravações. O governo federal nega envolvimento direto. A emenda passou. Fontes ligadas à base governista na Câmara afirmam que Ronivon Santiago e João Maia não são casos isolados. A compra de votos para a aprovação da emenda envolveu pelo menos outros oito parlamentares — cujos nomes não vieram a público e que, ao contrário dos dois deputados acreanos, tiveram o cuidado de não deixar rastros em gravações. "O que apareceu é a ponta", disse uma das fontes, que pediu anonimato. "O que não apareceu é o esquema." O mecanismo é simples: os valores não são transferidos diretamente aos parlamentares. Passam por escritórios de advocacia, contratos de consultoria fictícios e depósitos em contas de familiares. Uma estrutura que, segundo a fonte, já existia antes da votação e foi reativada para essa finalidade específica. O Correio do Rio solicitou posicionamento aos gabinetes dos dois deputados renunciantes e ao Ministério das Comunicações. Nenhum respondeu até o fechamento desta edição. A emenda foi aprovada por 336 votos a 17. Quantos desses votos foram comprados, provavelmente nunca se saberá. O que se sabe é que dois parlamentares admitiram — involuntariamente, pelo telefone — que os seus foram. Os outros continuam no cargo.

bottom of page