Satiagraha: a operação que prendeu o banqueiro e abalou a República

Na madrugada de 8 de julho, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Satiagraha em São Paulo, a promessa era desarticular o topo da pirâmide do crime financeiro no Brasil. Com 24 mandados de prisão e 56 de busca e apreensão, a rede capturou o banqueiro Daniel Dantas, o investidor Naji Nahas e o ex-prefeito Celso Pitta. Mas, no Brasil, a caça a bilionários costuma ser mais perigosa para o caçador do que para a presa. Duas semanas depois, quem está no banco dos réus é a própria operação.
O delegado Protógenes Queiroz, que comandou as investigações sobre lavagem de dinheiro e evasão de divisas, foi escanteado do inquérito após uma tensa reunião na Superintendência da PF paulista, com emissários enviados diretamente de Brasília. A versão oficial para o público é um insulto à inteligência: Queiroz estaria se afastando voluntariamente por "motivos pessoais" para realizar um curso de especialização.
Nos bastidores, o próprio delegado conta outra história. Em um documento de 16 páginas enviado à Procuradoria da República, Protógenes sustenta ter sofrido obstrução e boicote desde antes da deflagração. Segundo ele, na véspera das prisões, o chefe da divisão de crimes financeiros da PF exigiu, em tom agressivo por telefone, uma cópia da decisão judicial com a lista de alvos. Protógenes recusou, temendo vazamentos. A cautela, no entanto, não impediu sua queda.
O pretexto perfeito para implodir o delegado veio da própria condução do inquérito. A cúpula da PF constatou que mais de 70 agentes da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) participaram da Satiagraha — número que, segundo fontes, pode chegar a uma centena. Introduzidos clandestinamente na investigação, sem autorização judicial formal, os arapongas realizaram vigilância, registros fotográficos e escutas, entregando à defesa de Dantas o argumento da ilegalidade de bandeja.
A crise escalou para o topo da Praça dos Três Poderes. Dantas não chegou a esquentar a cela. Em uma movimentação jurídica sem precedentes, o banqueiro foi solto duas vezes na mesma semana graças a dois habeas corpus concedidos em tempo recorde pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes.
O clima de guerra institucional forçou uma reunião a portas fechadas no Palácio do Planalto no dia 14 de julho. Após o encontro com o presidente Lula e o ministro da Justiça, Tarso Genro, Mendes saiu vitorioso. O governo federal avalizou publicamente o afastamento de Protógenes.
Como se a humilhação institucional não bastasse, a PF agora gasta energia investigando a si mesma, tentando descobrir quem avisou as equipes de televisão que já aguardavam de prontidão na porta de Dantas antes mesmo de as viaturas chegarem.
O advogado de Daniel Dantas repete o roteiro padrão: afirma que o cliente é inocente e que a investigação é um amontoado de abusos. Com Protógenes fora do caminho e as provas sob ameaça de anulação, o inquérito da Satiagraha continua, mas o recado de Brasília já foi dado. O sistema financeiro tem regras, mas a principal delas é que certas portas não devem ser arrombadas.



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