Alta do petróleo acelera procura por carros elétricos em diferentes países

O aumento do preço do petróleo vem dando novo impulso ao mercado de veículos elétricos em diferentes partes do mundo. A combinação entre combustíveis mais caros e preocupação com a segurança energética levou consumidores a antecipar a compra de modelos movidos a bateria ou híbridos plug-in.
A Agência Internacional de Energia (IEA) estima que esses veículos representarão 29% das vendas de carros novos no mundo em 2026. O resultado representa uma forte evolução em relação a 2020, quando os eletrificados respondiam por apenas 4% das vendas globais.
O movimento ganhou força depois do início da guerra entre Estados Unidos e Irã e do fechamento do estreito de Ormuz. Desde então, o petróleo Brent, referência internacional, acumulou alta superior a 25%, pressionando os preços da gasolina e do diesel em diversos mercados.
Crescimento aparece fora dos maiores mercados
O avanço dos carros elétricos não ocorre de maneira uniforme. China e Estados Unidos, os dois maiores mercados do segmento, enfrentam dificuldades próprias, enquanto países que tradicionalmente tinham participação menor passaram a registrar forte crescimento.
Na África do Sul, as vendas mais que quintuplicaram no primeiro semestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior. Na Austrália, no Brasil, na Índia e na Coreia do Sul, as vendas aproximadamente dobraram desde o começo do conflito no Oriente Médio. A participação dos elétricos também avançou de forma significativa em países como Colômbia.
O comportamento dos consumidores também aparece nas pesquisas pela internet. Um levantamento da BloombergNEF identificou aumento expressivo nas buscas por veículos elétricos, especialmente em mercados onde o preço dos combustíveis sofreu maiores reajustes.
China continua no centro da transformação
Apesar do crescimento global, a China registrou uma retração nas vendas totais de veículos elétricos no primeiro semestre. O enfraquecimento da economia e a redução dos incentivos públicos contribuíram para o resultado.
Ainda assim, o país permanece muito à frente do restante do mundo e concentra cerca de metade das vendas globais de veículos elétricos. A frota chinesa em circulação é aproximadamente equivalente à soma dos veículos elétricos existentes nos demais países.
O setor também fortalece a posição da indústria chinesa no comércio internacional. Empresas do país exportaram cerca de 2,4 milhões de veículos elétricos apenas nos primeiros seis meses de 2026, quase alcançando, em meio ano, o volume exportado durante todo o ano passado.
Estados Unidos perdem força
No mercado americano, as vendas também recuaram depois que o Congresso, controlado pelos republicanos, encerrou gradualmente o crédito tributário de US$ 7.500 oferecido aos compradores de veículos elétricos.
A redução dos incentivos tornou a aquisição desses modelos menos atraente para parte dos consumidores. Mesmo assim, os preços elevados dos combustíveis continuam funcionando como um fator de estímulo à eletrificação em outros mercados.
Governos ampliam incentivos
A pressão provocada pelo petróleo caro também levou governos a adotar novas medidas para acelerar a substituição dos veículos movidos a combustíveis fósseis.
Irlanda e Holanda anunciaram programas para estimular a troca de carros antigos por modelos elétricos. O Chile criou incentivos para ônibus e táxis, enquanto a Espanha prorrogou benefícios fiscais. Na China, novas metas foram estabelecidas para ampliar a eletrificação de caminhões.
A IEA avalia que a crise reforçou o argumento de que veículos elétricos podem ajudar os países a reduzir sua exposição ao petróleo importado. Os automóveis representam aproximadamente metade do consumo mundial da commodity.
Petróleo pode cair, mas tendência deve continuar
Um dos principais pontos de incerteza é o comportamento das vendas caso a guerra termine e o fluxo pelo estreito de Ormuz seja normalizado. Uma eventual queda no preço do petróleo poderia reduzir, no curto prazo, o incentivo econômico para a troca por um veículo elétrico.
Analistas, porém, avaliam que o crescimento do setor não depende exclusivamente do preço da gasolina. A redução gradual do custo das baterias pode tornar os elétricos mais competitivos nos próximos anos, diminuindo uma das principais barreiras para sua adoção.
Além disso, apesar do preço inicial geralmente mais elevado, os veículos elétricos tendem a apresentar custos menores de combustível e manutenção ao longo da vida útil. A vantagem é especialmente relevante para motoristas que utilizam o carro intensivamente, como profissionais de aplicativos.
A disparada do petróleo, portanto, pode ter acelerado uma transformação que já estava em curso. Mesmo quando os preços dos combustíveis voltarem a cair, a combinação entre baterias mais baratas, incentivos públicos e redução dos custos de operação pode manter os carros elétricos avançando no mercado mundial.



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