Os nomes que o Congresso negociou para esconder
A Comissão Parlamentar de Inquérito do Orçamento, instaurada no mês passado após as denúncias que abalaram o país, já avança sobre 37 deputados federais, entregando à opinião pública o que parece ser uma faxina histórica. A engrenagem de desvios, no entanto, é mais profunda do que a lista oficial faz crer. Por trás da aparente devassa que estremece a capital, opera uma blindagem silenciosa: há nomes que não estão no escopo das investigações — e que, segundo fontes ouvidas pelo Correio do Rio, foram deliberadamente apagados dele.
O esquema que o Congresso agora tenta amputar para salvar o próprio corpo funciona há anos sob a luz do dia. O roteiro é metódico: emendas aprovadas em favor de construtoras e entidades filantrópicas controladas por laranjas, comissões pagas à margem de qualquer registro contábil e dinheiro público que escorre pelo ralo antes de chegar ao destino declarado. No epicentro do escândalo repousa o deputado João Alves (PFL-BA), cujo patrimônio faraônico ele atribui, com um cinismo ímpar, à intervenção divina e a uma sucessiva "sorte" nas loterias. A CPI não engoliu a desculpa. A Justiça ainda dará sua palavra.
Contudo, o que os robustos relatórios oficiais calam é que a moralização tem uma fronteira muito bem traçada — e esse limite foi negociado nos bastidores.
Fontes ligadas às assessorias de parlamentares fluminenses, sob a exigência de anonimato por justificado temor de represálias, revelam que ao menos três caciques com base eleitoral no Rio de Janeiro participaram ativamente do balcão de negócios sem que seus nomes resvalassem na lista de indiciados. "Há um acordo tácito sobre até onde a corda pode esticar", confidenciou um dos assessores. "Alguns nomes são intocáveis. Não por escassez de provas, mas por um superávit de proteção política."
A reportagem do Correio do Rio obteve acesso exclusivo a documentos que rastreiam o escoamento de verbas federais para duas entidades fluminenses — uma associação cultural de fachada em Niterói e uma suposta cooperativa agrícola no Norte do estado. Juntas, sugaram uma soma equivalente a milhões de dólares em emendas aprovadas entre 1991 e 1992. Nenhum tijolo foi comprado para a cultura; nenhuma semente foi plantada no campo. Procurados nos endereços registrados, os responsáveis pelas entidades evaporaram.
Os nomes desses três deputados fluminenses não figuram nesta edição. O Correio do Rio aguarda o retorno das interpelações enviadas formalmente aos seus gabinetes na Esplanada. Sem respostas convincentes até o nosso próximo fechamento, o anonimato cairá.
A CPI tem previsão de encerramento para o primeiro semestre de 1994. Até lá, Brasília corre contra o tempo não apenas para punir os que caíram, mas para garantir que o que foi enterrado no escuro continue exatamente lá.
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