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Atentado em Marrakesh acende guerra nas sombras entre Marrocos e Argélia

22 de set. de 1994
2 min de leitura

Atualizado: 26 de ago.


A fachada do Atlas Asni ainda carrega as marcas de agosto. Dois turistas espanhóis mortos, um hotel de luxo no coração de Marrakesh transformado em cena de crime, e uma crise diplomática que o governo marroquino tenta controlar com o mesmo cuidado com que se segura uma faca pela lâmina.

O atentado durou minutos. As consequências, ninguém sabe ao certo quanto tempo vão durar.

Rabat foi rápida em apontar o dedo para a Argélia. Mais precisamente, para o GIA — Groupe Islamique Armé —, organização extremista que opera a partir do território argelino e que, segundo autoridades marroquinas, planejou e financiou o ataque. A Argélia nega qualquer envolvimento. O que se seguiu foi o fechamento imediato da fronteira entre os dois países — uma decisão que, na prática, sepulta anos de esforços de aproximação entre as duas nações do Magrebe.

Esta reportagem passou dez dias no Marrocos. O que encontrou é mais complexo do que a versão oficial de qualquer um dos lados.

"Ninguém aqui acredita que foi simples", disse uma fonte ligada à imprensa local, que pediu para não ser identificada. "Há interesses demais em jogo para que isso seja apenas o que parece."

O Atlas Asni não é um hotel qualquer. Frequentado por diplomatas e empresários europeus, sua clientela o tornava um alvo de alto valor simbólico. Fontes de segurança ouvidas pelo Correio do Rio sugerem que o ataque pode ter sido menos uma operação terrorista convencional e mais uma mensagem — enviada por quem, e para quem, ainda é matéria de disputa nos bastidores dos dois governos.

A fronteira fechada não é apenas uma linha no mapa. É uma artéria econômica paralisada, comunidades divididas, famílias separadas. No posto de Oujda, na fronteira nordeste, homens esperam com malas nas mãos por uma reabertura que não vem. Uma comerciante de tecidos que cruzava a fronteira toda semana resumiu o que muitos pensam, mas poucos dizem em voz alta: "Quem sofre somos nós. Os que fecharam a fronteira não precisam cruzá-la."

Os serviços de inteligência marroquinos não concederam entrevistas. O Ministério do Interior respondeu com uma nota de duas linhas reafirmando a responsabilidade argelina. Fontes argelinas consultadas remotamente descreveram as acusações como desvio de atenção de problemas internos.

O atentado do Atlas Asni serve a propósitos que vão além do ato em si. A crise entre Marrocos e Argélia existia antes de agosto. O que mudou é que agora ela tem um nome, uma data e dois mortos que o mundo ocidental não vai esquecer tão cedo.

A guerra nas sombras entre os dois países não começa aqui. Apenas fica mais difícil de ignorar.


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